• 22nd June 2009 - Por Lairson, o Velho

    As histórias abaixo, verdadeiras, ocorreram em épocas muito diferentes e distantes entre si. A primeira ocorreu com uma pessoa que considero amiga, mas que não conheço, e foi escrita pelo próprio. Conforme minhas pesquisas, esse fato ocorreu a pouco menos de três anos, no interior de um restaurante localizado em Alphaville, no município de Barueri, região metropolitana de São Paulo. A segunda aconteceu comigo, em fevereiro de 1992, defronte à Estação Júlio Prestes, em São Paulo. Mas ambas, apesar dos mais de quinze anos que as separam, são atualíssimas e mostram o quanto estamos preocupados com o próprio umbigo, desatentos ao que ocorre em nosso redor. Sinceramente, eu ainda não consegui atingir o grau de atenção e entendimento que gostaria e que seria o ideal, quanto ao que ocorre à minha volta, mas confesso que desde aquele episódio, num começo de tarde na Estação Júlio Prestes, eu venho tentando não ser insensível ao sofrimento de meus semelhantes. E o que aconteceu com meu amigo em Barueri veio em boa hora reforçar e relembrar-me do compromisso que assumi comigo mesmo e com o meu próximo, naquele verão de 1992. Eis os fatos:

    AS LÁGRIMAS DE UM AMIGO DESCONHECIDO

    Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, pois queria aproveitar os poucos minutos de que dispunha naquele dia atribulado para comer e consertar alguns bugs de programação de um sistema que estava desenvolvendo, além de planejar minha viagem de férias (há tempos não sei o que são férias…). Pedi um filé de salmão com alcaparras na manteiga, uma salada e um suco de laranja, pois afinal de contas fome é fome, mas regime é regime, né? Abri meu notebook e levei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim:

    - Tio, dá um trocado?
    - Não tenho, menino.
    - Só uma moedinha para comprar um pão.
    - Está bem, compro um para você.

    Para variar, minha caixa de entrada estava lotada de e-mails. Fico distraído vendo poesias, as formatações lindas, dando risadas com as piadas malucas. Ah! Essa música me leva a Londres e a boas lembranças de tempos idos.

    - Tio, pede para colocar margarina e queijo também?

    Percebo que o menino tinha ficado ali.

    - Ok, mas depois me deixe trabalhar, pois estou muito ocupado, tá?

    Chega a minha refeição e junto com ela o meu constrangimento. Peço um sanduíche com margarina e queijo para o menino e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto sair. Meus resquícios de consciência me impedem de concordar.  Digo que está tudo bem.

    - Deixe-o ficar. Traga o pão… Aliás, traga uma refeição decente para ele.

    Então o menino se sentou à minha frente e perguntou:

    - Tio, o que está fazendo?
    - Estou lendo uns e-mails.
    - O que é e-mails?
    - São mensagens eletrônicas mandadas por pessoas via Internet.

    Sabia que ele não iria entender nada, mas a título de livrar-me de maiores questionários disse:

    - É como se fosse uma carta, só que via Internet.
    - Tio, você tem Internet?
    - Tenho sim, é essencial no mundo de hoje.
    - O que é Internet, tio?
    - É um local no computador onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem tudo no mundo virtual.
    - E o que é virtual, tio?

    Resolvo dar uma explicação simplificada, novamente na certeza que ele pouco vai entender e vai me liberar para comer minha refeição, sem culpas.

    - Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse.
    - Legal, isso. Gostei!
    - Mocinho, você entendeu o que é virtual?
    - Sim, tio, eu também vivo nesse mundo virtual.
    - Você tem computador?
    - Não, mas meu mundo também é desse jeito… Virtual. Minha mãe fica todo dia fora, só chega muito tarde, quase não a vejo. Eu fico cuidando do meu irmão pequeno que vive chorando de fome, e eu dou água para ele pensar que é sopa. Minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas coitadinha, ninguém compra, porque ela sempre volta com o corpo. Meu pai está na cadeia há muito tempo. Mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida muitos brinquedos de Natal, e eu indo ao colégio para virar médico um dia. Isso não é virtual, tio?

    Fechei meu notebook, pois minhas lágrimas, que caiam sobre o teclado, poderiam causar algum defeito. Esperei que o menino terminasse de literalmente “devorar” o prato dele, paguei a conta e dei o troco para o garoto, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que eu já recebi na vida, e com um “Brigado, tio, você é legal!”. Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel rodeia de verdade, e fingimos que não percebemos.

     

    AS LÁGRIMAS DO VELHO

    O meu destino era a rua Santa Ifigênia, onde sabia que encontraria as peças necessárias para o novo apartamento — torneiras, duchas e assessórios elétricos — que eu acabara de alugar, após o conturbado e doloroso final de meu primeiro casamento. Meu cérebro não parava de pensar que há pouco mais de duas semanas a minha única filha dera à luz o meu único neto, e eu não estava junto dela. A separação foi dolorosa, carregada de mágoas e ressentimentos, ocorrida há alguns meses apenas. O meu estado de espírito e o meu humor estavam em absoluta decadência. A Denise, que se tornou a minha querida segunda esposa e o principal motivo da separação, me acompanhava naquele dia e percebia que eu caminhava rapidamente para uma depressão perigosa. Ela estava naturalmente preocupada, mesmo porque estávamos juntos há poucos meses e montando o nosso lar. Aliás, ela também passara por terríveis decepções com a sua família, devido à sua opção por mim. Porém, heroína como sempre foi, me amparava, quando de fato necessitava de mais amparo do que eu. Que Deus a abençoe sempre por isso, e me lembre todos os dias o tesouro que possuo.

    Desembarcamos do trem… Aliás, cabe aqui um comentário: por que “desembarcar de um trem”? Desembarcar deveria ser o ato de sair de um barco… Essa nossa língua é repleta de esquisitices, não é mesmo? Bom, desembarcamos na Estação Júlio Prestes aproximadamente às 13 horas e resolvemos comer algum lanche, pois estávamos com fome. Defronte à porta principal encontramos uma barraca-lanchonete que servia pastéis preparados na hora, cujo aroma nos despertou o apetite. Paramos ali mesmo e pedimos pastéis para ambos. Quando eu estava na metade do meu pastel, fui cutucado no braço direito por um senhor maltrapilho, que sem falar nada simplesmente estendeu a sua mão, no clássico sinal de quem pede esmolas. Envenenado por meus problemas, depressões e revoltas, sinalizei negativamente com a cabeça e dei-lhe as costas. Alguns segundos depois, a Denise me disse, apontando para o velhinho: “Amor, ele só queria comer um pastel…”. Virei-me para o velho e, ao vê-lo saboreando, faminto, um pastel oferecido por alguém ali presente, meu coração imediatamente rachou ao meio. Naquele momento eu percebi o quanto sou egoísta, estúpido e insensível. Não pude mais comer, perdi o apetite. E quase já não enxergava mais nada, pois os olhos não paravam de encher-se de lágrimas. Mas, mesmo assim, não tive coragem e decência suficientes para chamar aquele velhinho e pedir perdão pela grosseria.

    Até hoje aquela falta de sensibilidade e educação me persegue e incomoda. E sempre, sem exceção, os olhos voltam a se encherem de lágrimas, inclusive neste momento em que estou escrevendo. Acredito ser improvável que aquele velhinho possa ser identificado, neste momento e neste mundo insensível que vivemos. Mas, esteja ele onde estiver, que Deus o abençoe e quiçá me perdoe pela falta de humanidade que demonstrei naquele dia.

    • by Lairson, o Velho

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