O brasileiro tem de assumir a própria lepra!
Também sinto isso nestes dias sinistros, entre tragédias sangrentas e a aberta desfaçatez de políticos desafiando a República. Às vezes, penso, como cantou Cole Porter: “O que devo fazer ? Tomo cianureto ou champagne?” Mas, lendo e relendo esses artigos, eu me pergunto: “Será? Será mesmo que estamos perdidos e mal-pagos?”
Aí, resolvi pegar meu velho telefone preto e ligar para o Nelson Rodrigues, lá no paraíso onde vive, um céu de teatro de revista, com nuvens de algodão e estrelas de papel dourado.
Nelson me atende:
-Você anda sumido, hein rapaz!…Está ficando mascarado?
-Não, Nelson - estou deprimido com esta suja tragédia nacional. Até o FHC que tem bom humor está exalando cava depressão…
-Sossega, leão…não é nada disso…‘Nunca antes’ o Brasil teve a chance luminosa de ver a própria cara! Estamos entendendo que a história marcha pelas brechas, pelos buracos de cupim…Não existem as tais ‘relações de produção e blocos históricos’ - isso é bobagem….A história é um botequim de pé sujo….Você viu: o micróbio na barriga do Tancredo Neves mudou o curso do país; tudo ia bem e acabou sob o bigode do Sarney. E o ciúme do Pedro Collor não provocou o ‘impeachment’? Mais atrás, um porre do Jânio embaralhou a pátria! Ou não? É assim, rapaz…
Veja você o Renan…Estou acompanhando tudo como um folhetim de mim mesmo: a amante, a ‘gestante’, os envelopes de jabá, a fidelidade obstinada da esposa enganada, os oposicionistas no Congresso tremendo de medo de que ele revele o nome das namoradas…Todos têm amantes em Brasília….Lá não há inocentes, todos são cúmplices…O Brasil está parado por um adultério financiado por uma empreiteira!
Outro dia mesmo, a história mundial mudou por causa da Monica Lewinsky…Bush foi eleito por ela e pelo moralismo dos americanos contra o Clinton e o Gore. A guerra do Iraque começou entre seus lábios! Aqui, também é assim….Aliás, eu acho o Renan muito educativo. Ele nos ensina que o egoísmo privado é a Pedra da Gávea que resiste a todo interesse público…E a classe média, que babou na própria gravata durante séculos, está acordando da própria estupidez. Qualquer vendedor de Chicabon já entende de economia; nunca contemplamos nosso destino de vira-latas com tanta nitidez…
Quer ver outra coisa boa que aconteceu? A desmoralização dos bolchevistas de galinheiro que encantavam a consciência dos intelectuais…Estão todos de rabo entre as pernas, se esgueirando pelos cantos das universidades…Descobriram que a ‘revolução brasileira’ era o oxímoro perfeito: a ‘revolução reacionária’. É verdade que sobraram os pelegos sindicalistas roendo o Estado como rapadura, mas é melhor que o bolchevismo do Dirceu que ia destruir o Plano Real, em nome do povo…Aliás, cá entre nós, o Dirceu está podre de rico, fazendo negócios com os comunas latinos. Ele bate nas algibeiras e berra, ovante e jucundo: “Dinheiro há! Dinheiro há!” E a indústria das indenizações pela ditadura, comandada pelo Greenhalgh? Dizem que ele já tem até piscina com chafariz e filhote de jacaré! Qualquer sujeito que levou um tapa da polícia na ditadura pediu indenização: trinta contos por mês..
Quer ver outra coisa boa? Acabou a idéia de ‘utopia’…Ninguém sabia direito o que era isso, pensavam que era a mulher do Prestes, a Dona Utopia….Pois, acabou; hoje, aprendemos que o que interessa é a ‘administração’, que um país só cresce se for como um armazém, com o português de lápis atrás da orelha, fazendo contas…
Sabe por quê você e seus amigos intelectuais, como o doce Roberto Pompeu estão tristes? Porque no fundo vocês ainda acreditam em uma ‘harmonia futura’…Maquiavel acabou com essa ilusão do Platão há muito tempo… Aliás, o Maquiavel fica rindo do Hegel aqui em cima, que anda muito deprimido. Rapaz… a história é uma selva de epilépticos, a história não é um piquenique, não.
E tem mais: debaixo desses escândalos e tragédias, muitos fios vão se tecendo. As ‘coisas’ têm vida própria…De noite, micro-revoluções se passam, nas insônias das pessoas…Por exemplo, a oposição se derreteu, mas a imprensa está fazendo gol de bicicleta…As coisas se movem no escuro…
E tem o Acaso, também. Por exemplo, esse Lula tem sorte p’ra burro, rapaz; se ele der um palpite do bicho, joga na cabeca, porque ganha…Ele herdou a inflação zero do FHC, diz que foi ele que fez, e ainda pegou a economia numa fase rara! O Milton Friedman chegou aqui outro dia e me disse: “Olha, Nelson, eu achava que ‘não tinha almoço de graça’, não. Mas, tem. O Lula está comendo de graça”. Esta crise aí passa logo e com a economia funcionando, temos a chance única de assistir ao teatro de revistas do Brasil…O primeiro passo para a reconstrução nacional é a desmoralização absoluta! O Jorge Luis Borges, que anda por aqui tropeçando nos anjinhos, disse que a “esperança é o mais sórdido dos sentimentos…” Ele não é burro, não…A frase é boa - o Otto Lara está com uma inveja danada…
O único perigo seria uma quebradeira economica. Aí o Lula podia querer ‘venezuelizar’ a coisa e chamar os analfabetos para cerrar fileiras e criar a tal Assembléia Constituinte, mas o Tocqueville me garantiu que acha difícil, porque o Lula não é o Chavez, aquele leão de chácara da Praça Mauá…O Brasil é mais complicado…
Olha, rapaz, o sujeito e os países só se salvam se assumirem a própria miséria, a própria lepra!..Em vez de reclamar, vocês deviam se agachar e beber a água da sarjeta! Ela é a salvação!…
-Obrigado, Nelson, ganhei mais um dia…
ARNALDO JABOR
[PT]O brasileiro tem de assumir a própria lepra, Brasil, política[/PT]

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