• 30th June 2009 - Por Lairson, o Velho

    O texto abaixo, que encontrei arquivado dentre as minhas pérolas, foi redigido por mim há algum tempo (ano de 2006, inicio do curso de Direito), inspirado por frases cuja autoria não lembro. Foram apenas algumas frases, mas que me deram amplos motivos para escrever uma novela. Se não me engano, são frases de Millor Fernandes; ou seria L.F.Veríssimo?… Como o tempo é corrosivo, o meu texto original apresentou algumas formas ultrapassadas e, assim, o reescrevi e readaptei, pois o considero de extrema utilidade ao léxico de nosso idioma pátrio.

    Da mesma forma como o “blz”, o “vc”, o “pq” e o “[]’s”, que significam, respectivamente, “beleza”, “você”, “por que” e “abraços”, na linguagem merdificada, rebuscada e bostejada da Internet, os termos abaixo merecem o mesmo tratamento e destinação, ou seja, serem definitivamente incorporados ao nosso idioma clássico nativo. Vamos, a partir de agora, discutir a importância, o caráter e a magnificência dos palavrões. Termos que, vocês hão de convir comigo, devem (e merecem) ser incorporados ao Português Clássico, já que na linguagem coloquial se encontram absoluta e permanentemente presentes.

    Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente úteis e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem, com a maior fidelidade possível, nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo construindo o seu idioma. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. “Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de abundância do que “pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de scotch pra caralho… Entenderam?

    No gênero do “pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “nem fodendo!”. É inútil tentar substituí-lo pelo “não, não e não!” ou pelo tampouco eficaz e já sem nenhuma credibilidade “absolutamente, não!”. O “nem fodendo” é irretorquível e liquida o assunto. Além disso, o libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos o atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo e absoluto “nem fodendo!”. O impertinente se manca na hora e vai pro shopping, se encontrar com a turma numa boa, e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Led Zeppelin.

    Enquanto isso, o “porra nenhuma!”, por sua vez, atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a empáfia daquele chefe idiota senão com um “PhD, porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho, porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” – presidente de porra nenhuma.

    Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “puta-que-o-pariu!”, ou sua corruptela “puta-que-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, ou de um fenomenal assombro, qualquer “puta-que-o-pariu!”, dito assim, coloca o indivíduo novamente em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá digerir o susto, dar um merecido troco ou safá-lo de maiores dores de cabeça. E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no olho do seu cu!”. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

    E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar — “Fodeu!” — e a sua derivação mais avassaladora ainda — “Fodeu tudo!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, num carro emprestado e sem documentos ou carteira de habilitação, e ouve uma sirene de polícia atrás de você, lhe mandando parar. O que você fala? “Fodeu tudo!”. Imagine a seguinte situação: você percebe que tudo à sua volta está desmoronando, sua mulher foi embora para a casa da mãe, seu chefe entrou com o pé e você com a bunda, seus vizinhos fingem que não o conhecem e o dono da padaria deu ordens de não vender mais fiado para você. Ao reconhecer que tudo está perdido, você novamente desabotoa a camisa, sai à rua, vento forte na face, olhar firme e, de cabeça erguida, exclama corajoso e condescendente: “Fodeu tudo!”. Me diga se depois disso você não voltará para a sua casa, repousará tranquilamente sua cabeça no travesseiro e dormirá o sono dos justos?

    Finalmente, aquele que merece a medalha de honra ao mérito dos palavrões: o “foda-se!”. Merece, sem dúvida, destaque na classificação de importância, sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!”? O “foda-se!” aumenta a auto-estima, torna qualquer pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta. “Não quer sair comigo? Foda-se!”. “Quer resolver essa porra sozinho? Foda-se!”. O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na carta magna brasileira, através de Emenda Constitucional que alterasse o artigo 5º, caput, da Constituição Federal, que ficaria assim definido: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, à propriedade e ao foda-se, nos termos…”. Não acham que assim, a vida se tornaria muito mais… digamos… digna de ser vivida?

    • by Lairson, o Velho<!– –>

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